04 maio Intercâmbio agroflorestal reúne agricultores de três territórios no nordeste paraense
Atividade realizada pelo IFT no Instituto Vida em Sintropia da Amazônia aproximou agricultores e agricultoras de experiências práticas em agricultura sintrópica, recuperação de áreas degradadas e implantação de sistemas agroflorestais.
Nos dias 18 e 19 de abril, o Instituto Floresta Tropical (IFT) realizou um intercâmbio agroflorestal no Instituto Vida em Sintropia da Amazônia (IVISAM), em Irituia, no nordeste paraense. A atividade reuniu agricultores e agricultoras de três organizações comunitárias do Pará para uma vivência prática sobre agricultura sintrópica, recuperação de áreas degradadas e manejo de sistemas agroflorestais.
Participaram representantes da Associação Guamaense de Agropecuária, Pesca e Aquicultura (AGUAPA), de São Miguel do Guamá; da Cooperativa Mista Agroextrativista da Reserva Extrativista Arióca Pruanã (COOMAP), de Oeiras do Pará; e da Associação dos Moradores da Reserva Extrativista de Mapuá (AMOREMA), de Breves.
A iniciativa integra as ações da Gerência de Sociobiodiversidade e Bioeconomia (GSB) do IFT e teve como objetivo aproximar agricultores e agricultoras de experiências já consolidadas de produção agroflorestal, com foco na adaptação das técnicas à realidade de cada território.
Durante os dois dias de atividade, os participantes conheceram, em campo, princípios da agricultura sintrópica, como a importância da biodiversidade nos sistemas produtivos, o uso de plantios consorciados com espécies de diferentes ciclos e a centralidade da saúde do solo para garantir produtividade, equilíbrio ecológico e resiliência das áreas cultivadas.
Segundo Isabela Cardoso, analista técnica do IFT que acompanhou a atividade, o intercâmbio permitiu que os agricultores visualizassem, na prática, soluções que muitas vezes são discutidas apenas de forma teórica.
“Quando os agricultores entram em uma área manejada, observam a diversidade de espécies, veem a cobertura do solo e entendem como cada planta cumpre uma função no sistema, o aprendizado ganha outra dimensão. O intercâmbio mostra que é possível produzir alimentos, recuperar áreas degradadas e fortalecer a autonomia das famílias agricultoras ao mesmo tempo”, afirma Cardoso.
Recuperação de áreas degradadas
Um dos destaques da programação foi a visita ao Sítio Portal Monã, onde os participantes conheceram experiências de recuperação de áreas degradadas por meio de sistemas agroflorestais. A vivência permitiu observar como áreas antes empobrecidas podem ser reorganizadas a partir do manejo adequado do solo, da diversidade de espécies e do planejamento da sucessão ecológica.

Participantes visitaram o Sítio Portal Monã, em Irituia (Foto: Acervo IFT)
Os agricultores também aprenderam sobre etapas fundamentais para a implantação de sistemas agroflorestais, desde o planejamento, ou desenho da área, até a escolha das espécies e a adaptação das técnicas às condições de cada propriedade ou comunidade.
A proposta, segundo o IFT, não é apresentar um modelo único, mas estimular a construção de soluções possíveis para diferentes contextos produtivos, respeitando o conhecimento local e as experiências acumuladas pelas famílias agricultoras.
Para Paula Vanessa Silva, gerente da Gerência de Sociobiodiversidade e Bioeconomia do IFT, esse tipo de atividade fortalece a troca entre saberes técnicos e comunitários.
“A agrofloresta não é apenas uma técnica de produção. Ela é uma forma de reorganizar a relação entre agricultura, floresta e trabalho das famílias. O papel do IFT é contribuir para que essas experiências sejam compreendidas, adaptadas e fortalecidas nos territórios, sempre a partir do diálogo com quem vive e produz na Amazônia”, afirma Silva.
Roça consorciada reduz esforço e otimiza áreas de produção
Outro ponto abordado durante o intercâmbio foi o aproveitamento de uma mesma área para o plantio de roça, como mandioca e macaxeira, em consórcio com outras culturas e espécies. A prática permite diversificar a produção e reduzir a necessidade de abertura e manejo de diferentes áreas, o que contribui para diminuir a penosidade do trabalho no campo.
Ao concentrar diferentes cultivos em um mesmo sistema, as famílias agricultoras podem otimizar o tempo de trabalho, melhorar o uso do solo e ampliar as possibilidades de produção para consumo e comercialização. A estratégia também favorece a cobertura vegetal, a ciclagem de nutrientes e a manutenção da umidade do solo.
“Esse foi um dos aprendizados mais importantes do intercâmbio, porque dialoga diretamente com a rotina das famílias. Quando se consegue produzir mandioca, macaxeira, frutíferas, espécies madeireiras e outras culturas em uma mesma área planejada, o trabalho fica mais eficiente e a terra passa a cumprir várias funções ao mesmo tempo”, diz Isabela Cardoso.
Organização do plantio e proteção do solo
Os participantes também conheceram uma técnica de organização do plantio no sentido Norte–Sul, em substituição ao sentido Leste–Oeste. Em sistemas agroflorestais, essa orientação pode favorecer o papel das bordas como quebra-vento, contribuindo para reduzir a perda de umidade e de matéria orgânica causada pela ação dos ventos.

Intercâmbio reuniu técnicos do IFT, IVISAM e representantes de três organizações comunitárias do Pará. (Foto: Acervo IFT)
A prática integra um conjunto de inovações desenvolvidas por agroflorestas ao longo de anos de observação e experimentação. Essas técnicas buscam melhorar o funcionamento ecológico das áreas produtivas, proteger o solo, ampliar a diversidade e criar condições mais favoráveis para o desenvolvimento das plantas.
Para Paula Vanessa Silva, o intercâmbio também reforça a importância de reconhecer a experimentação feita pelos próprios agricultores como parte do processo de inovação na Amazônia.
“Muitas das soluções mais potentes para a bioeconomia e para a produção sustentável já estão sendo testadas nos territórios. O intercâmbio cria pontes entre essas experiências, valoriza quem produz conhecimento na prática e ajuda a formar redes de aprendizagem entre agricultores, técnicos e organizações comunitárias”, afirma.
Agrofloresta, clima e futuro da floresta em pé
Além de contribuir para a produção de alimentos e a recuperação de áreas degradadas, os sistemas agroflorestais têm papel importante no enfrentamento das mudanças climáticas. Ao combinar espécies agrícolas, frutíferas, florestais e de diferentes ciclos, esses sistemas ajudam a aumentar a cobertura vegetal, proteger o solo, conservar água e ampliar a presença de matéria orgânica nas áreas produtivas.
Para o IFT, atividades como o intercâmbio agroflorestal são estratégicas para fortalecer práticas produtivas alinhadas à conservação da floresta e à melhoria das condições de vida das populações que vivem nos territórios amazônicos.
“A agrofloresta aponta um caminho concreto para produzir com a floresta, e não contra ela. É uma alternativa que combina segurança alimentar, geração de renda, recuperação ambiental e permanência das famílias no território. Quando fortalecemos esse tipo de prática, também estamos contribuindo para que as futuras gerações tenham o direito de viver e contemplar a floresta em pé”, diz Paula Vanessa Silva.
O intercâmbio em Irituia reforçou a importância da aprendizagem prática, da troca entre agricultores e da adaptação das técnicas agroflorestais às diferentes realidades da Amazônia. Para os participantes, a vivência trouxe referências concretas sobre como planejar, implantar e manejar sistemas produtivos mais diversos, resilientes e conectados à conservação da biodiversidade.



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